Postas

Simulacro

Há penas entre


Os assombros de uma estrutura social hermética
O indissolvível cheiro de pele morta
O sabor ferroso do sangue coletivo
Os escombros de uma escritura pessoal helvética

Cujos corpos sem serifa


Apenas são


Os assombros de uma estrutura social hermética
O indissolvível cheiro de pele morta
O sabor amargo do sangue coletivo
Os escombros de uma escritura pessoal helvética

Cujos corpos sem serifa


Apenas vão


Ser assombros de uma estrutura social hermética
O indissolvível cheiro de pele morta
O sabor amargo do sangue coletivo
Ser escombros de uma escritura pessoal helvética


O filme

Com um copo de conhaque barato, brindo a beleza inexplicável do invisível, saúdo cada relato insensato dos bêbados, agora românticos e ao meu redor. Exponho minhas soluções mirabolantes, minhas viagens lunares e respostas atômicas, descrevo meu passado ao qual tento a todos tele transportar. Nessa mesa trêmula e alcoolizada, acabo de sorver mais um barril de idéias: diluídas em cubos de gelo, filtradas por um repertório marginal e amargadas por longos goles de fantasia.
Nessa dança quase que tribal, em meio aos ritos da modernidade boemia, preservo o momento e o mantenho longe da minha ilha de edição. Não ligarei se amanhã acordar com as têmporas em ritmo de tambor, nem se estiver com o estômago em chamas, só quero o relato de hoje, estampado em meus frames.

Chapéu Panamá

O Homem do chapéu Panamá

em um turbilhão de idéais trafega por entre rios e nascentes do inconsciente.

Ele sabe que o éden está contido na caixa crâniana e que o resto, é apenas cenário de tolos devaneios.

Carne

Osso

Matéria que se choca no dia-a-dia da megalópole


Ele sabe que na roleta a vida não tem freios.

Indiscritíveis

Inevitáveis são os pingos,

dos quais não teimo em desviar

Indubitáveis são as coisas,

as quais tem chance de duvidar

Imprescindíveis são as palavras,

as quais em silêncio eu sei lidar

Indivisíveis são teus olhos,

os quais não posso nunca evitar

Gravidade Relativa

O espaço
O passo do antepassado
Falta da Gravidade

Ex-passo
O posso já ultrapassado
Alta da grave idade

Rotina

As senhas imemoráveis de cada ato público
O itinerário trabalhista simétrico
O despertador histérico
O preço do álcool
O passo do ano
O nosso incêndio
O espaço impublicável
Artérias quase que intransitáveis
As senhas inexplicáveis de cada ato público
E uma pitade de vontade a gosto

O fim

O silêncio mastigado em nossa sentença

O ruir da ponte que nos liga

A morte de um antigo passo

É o fim da música e o corpo se cansa

Dois continentes

Um estado só nosso

O fim da valsa.

SÁBIO

O sábio em silêncio opina

Em suas têmporas
Resquícios ácidos
Indícios do ócio

Seus ilustres vícios
Diferentes do ópio

Anestésico
Calmante
Antiquado


Cuja paz não lhe faz sábio.

Lúdico

Nessa manhã o sol acordou bucólico

Para os modernos bulêmico

Desfilando feixes entre o algodão noir

Raquítico mistério sem bula

Nessa cama sonhei com o velho Bukowski

Caminhando sozinho na marginal

Desviando das palavras

Bebendo aos goles seu vinho boçal

Em sua cabeça careca piscava o caos

Um bule despejando mulheres fervendo

Buquês baratos de pura poesia

Nessa noite em algum canto

O qual eu nunca encontro

Encontrarei Maiakowski

Mas depois eu conto.

Sentido do Ego

Toda solidão é fantasia

Vivida em coletivo

Muitos e muitos conversam com as paredes

Chamando cada novo abraço de abrigo

Eu prefiro viver fora dessa sede

Onde um ponto já é amigo

Cada corpo uma rede

Para o meu cego

E rebelde

Ego




Sou São Paulo

Nessa cidade eu apenas vivo

Em estado transitório

Meu caótico e monstruoso livro

Sem a palavra território

O som que ouço não é são

Olhos irritados e pensativos

Passo a doença de escritório

Afogo nesse imenso alfabeto clonado

Cuspido em nosso mictório

Com passos em pressa

Minha cabeça é poluição

Paulo

Ricardo

Dualibi

Ou outro santo vigário.

Tanto

De todo tanto que eu tento

Sou sincero e não minto

Em todo canto que eu sento

Um semi-santo eu me sinto

De todo tonto enquanto invento

Mil telas de vento eu pinto

Em todo conto eu vago lento

Depois de tanto vinho tinto.

Maldito Leminski

Maldito

Leminski

Por sua culpa

Esqueço

Maiakovski

Bukowski

E até

Dostoiévski

Perdoe-me

Leminski.

A flor da pele


Azulada

A rosa de hoje em dia

Posa sem a mesma dimensão

Intensificada em uma atriz mutável

Uma perfeita pintura da moderna expressão

Repousa eternamente em um corpo instável

Cheirando a segunda intenção

A rosa de hoje em dia

Tribal

Maori

Maia

Oriental

Inca

Preta

Branca

Sombreada

Medieval

Asteca

Rupestre

Rosa

Onde as agulhas machucam mais que os espinhos

Consumo

Esbarro em espasmos do espanto
Um mendigo morto
Agora é tanto

A morte veio para limpar sua face
Invisível
Consumir os fios velhos de sua barba
Indivisível
Acabar com a térmica atemporal de sua pele
Intransitável

Escarro nesses espasmos do espanto
Um mendigo morto
Sempre é canto

Polos

A poesia mimética de teus insanos sonhos

Transborda no lumiar de nossos luares atemporais

Pousa pasma sobre meus ainda sóbrios átomos

Imantados sobre as emendas de nossa pele

Sem pólo

Nem porem

Hoje sei

Sou matéria mutável

Adaptada a nossos finitos planos.

Um dia desses serei aquele grande acerto jamais cometido

Rodopiando por entre as cartas da multidão

Com a cabeça jogada nas nuvens

E teu corpo parado no então



Hoje o liso de teu laço trança por mil variáveis

Até pousar na dança

Cujos lábios lentamente se convergirão em um nó

Duas estrelas

Além das outras

Desaguando sem imergir

Nessa grande valsa

Onde o tempo todo e toda sua trama

Não passará de pó

Duas línguas

Além das outras

Nessa grande salsa

Onde o mundo todo e todo o seu drama

Nos assistirá em um só




Espaço
Peso
Som
Saliva escassa
Nosso nó.

Bípede Geométrico

Todo homem ultrapassa enquanto traça e tenta ação
Sua pena é pensar em planos, entorta ao andar em linha reta
Em modo de mundo relativo infinito, pões seus pontos
Enterra espaço escasso, sofre de vertigem em triângulos
Com vértices sem opção, teima a esculpir três lados
Ao desejo tenta regular, tropeçando em ser quadrado
Explode por fechar a obra, nunca saindo do esquadro
Chorando, pois perdeu todo compasso, traço da pressa
Andando em círculos, vivendo vidas medianas
Sair pela tangente é ser inteligível, segmento agudo
Da população que paralela a prática, vira escrava congruente

Matéria

Nosso infinito conjunto de moléculas, átomos e glóbulos

não passa de matéria prima para mil matérias póstumas

cuja carne, ossos e fábulas

logo serão tatuados em clones de celulose

entupindo algumas artérias com nanquim

E celebrando nossa morte em postas

Para que no futuro, quando não houver mais nada,

alguém nos veja absorvendo ácido úrico, uréia e bosta.

Pintura Rupestre do Rush

Por entre as artérias entupidas de São Paulo, a beira de um colapso cardíaco coletivo, sob o som atordoante de buzinas com diversos timbres e feixes de luz que refletem a tecnologia da megalópole, eu fui esmurrado por um fato que parece ter sido invisível a todos os engravatados, engarrafados e enfurecidos que passavam por ali.
Um homem escondido em trapos e sujeira, com aparência de quem acabara de ser descongelado e ainda estava atordoado por tanto caos e modernidade, foi atropelado pela pressa de quem sempre quer chegar em casa logo.
Cambaleando como um possível embriagado, por entre os carros quase morreu várias vezes. Dançando com a monstro da morte, por pouco não ganhou uma passagem para o IML. Torcendo para que seu sofrimento acabasse em um seguro acionado, ele com certeza não foi visto e ironicamente acabou sentando como uma pedra, as margens da marginal.

INSTINTO

O lobo percorre a planície
Enfrenta turbilhões de seu instinto
Faminto rasgando o escuro
Em frente à presa bebe vinho tinto

Sua espreita voraz não tem pressa
Aos poucos seus olhos sangram
Na caça a fera latente desconversa
Suas pegadas pesadas enganam

A presa se curva
Embriagada desfere seu último golpe
Fala toda verdade
O lobo saliva

Sua boca afiada prepara a mordida
Ele fecha os olhos
Atacando o pescoço da vítima
Ela nem mexe os lábios

Estremece enquanto é devorada
Suando e sem forças
Contudo prefere ficar calada
E ele chupando seus ossos

Estações do homem que ama

No outono vento em fúria faz despir
Em peças que afagam o solo
Pousando suave em salas de estar
Pedaços de corpos sem dono

Firme dança que precede o inverno
Metabolismo da pele fria
Para bons pais é a vinda do terno
Imprimindo a vida vazia

Lembrando das rosas sob a primavera
Inspirando orquídeas em fogo
Pintando árvores que meu tempo enterra
Pelo prazer de mudar este jogo

Agora o sol dá as cartas que os homens terão
Envolvendo corpos incrédulos
Transpirando o passado, agora verão
O mundo por trás desses óculos.

Eterno escuro

No espelho as olheiras espalham-se
Crescendo em volta do olho
Na infinita cama inquieta
Em silêncio eu penso no sono
Esta noite é febril e não passa
Com pressa acelero meu dano
O escuro cobre toda cabeça
Minha peça que já não tem dono
Enfim começo uma conversa
Digo às paredes que a noite é um ano
E ao relógio peço uma sentença
Ele responde com seu tom insano
Gritando e dizendo obedeça
As sete eu visto meu terno
E ao dia eu clamo o avesso
Dizendo ao sol anoiteça
Mas o claro também é eterno.

Navalha do tempo

O tempo nunca falha
Como exemplo
Cito aquela velha
semi morta
toda torta
A qual uma nova colcha
Ainda trêmula retalha
Em sua cadeira
Sem balanço
nem atalho
Contra o destino da navalha
Invisível ao olho
De quem vive de molho
Muito alho e agulha
A qual uma nova colcha
Ainda trêmula detalha
Como exemplo
Do tempo que nunca falha

Retrato mutável

Da janela estupidamente escancarada
O estonteante vazio dessa noite
Adentra em meu quarto
Copo de nada
Obrigado
Sou inutilmente sugado para dentro do quadro
Cuja pintura é mutável pelo tom transparente
Obrigado
Capa de nada
Separa o meu quarto
Do estonteante vazio dessa noite
Da janela estupidamente escancarada