Pintura Rupestre do Rush

Por entre as artérias entupidas de São Paulo, a beira de um colapso cardíaco coletivo, sob o som atordoante de buzinas com diversos timbres e feixes de luz que refletem a tecnologia da megalópole, eu fui esmurrado por um fato que parece ter sido invisível a todos os engravatados, engarrafados e enfurecidos que passavam por ali.
Um homem escondido em trapos e sujeira, com aparência de quem acabara de ser descongelado e ainda estava atordoado por tanto caos e modernidade, foi atropelado pela pressa de quem sempre quer chegar em casa logo.
Cambaleando como um possível embriagado, por entre os carros quase morreu várias vezes. Dançando com a monstro da morte, por pouco não ganhou uma passagem para o IML. Torcendo para que seu sofrimento acabasse em um seguro acionado, ele com certeza não foi visto e ironicamente acabou sentando como uma pedra, as margens da marginal.

INSTINTO

O lobo percorre a planície
Enfrenta turbilhões de seu instinto
Faminto rasgando o escuro
Em frente à presa bebe vinho tinto

Sua espreita voraz não tem pressa
Aos poucos seus olhos sangram
Na caça a fera latente desconversa
Suas pegadas pesadas enganam

A presa se curva
Embriagada desfere seu último golpe
Fala toda verdade
O lobo saliva

Sua boca afiada prepara a mordida
Ele fecha os olhos
Atacando o pescoço da vítima
Ela nem mexe os lábios

Estremece enquanto é devorada
Suando e sem forças
Contudo prefere ficar calada
E ele chupando seus ossos

Estações do homem que ama

No outono vento em fúria faz despir
Em peças que afagam o solo
Pousando suave em salas de estar
Pedaços de corpos sem dono

Firme dança que precede o inverno
Metabolismo da pele fria
Para bons pais é a vinda do terno
Imprimindo a vida vazia

Lembrando das rosas sob a primavera
Inspirando orquídeas em fogo
Pintando árvores que meu tempo enterra
Pelo prazer de mudar este jogo

Agora o sol dá as cartas que os homens terão
Envolvendo corpos incrédulos
Transpirando o passado, agora verão
O mundo por trás desses óculos.

Eterno escuro

No espelho as olheiras espalham-se
Crescendo em volta do olho
Na infinita cama inquieta
Em silêncio eu penso no sono
Esta noite é febril e não passa
Com pressa acelero meu dano
O escuro cobre toda cabeça
Minha peça que já não tem dono
Enfim começo uma conversa
Digo às paredes que a noite é um ano
E ao relógio peço uma sentença
Ele responde com seu tom insano
Gritando e dizendo obedeça
As sete eu visto meu terno
E ao dia eu clamo o avesso
Dizendo ao sol anoiteça
Mas o claro também é eterno.

Navalha do tempo

O tempo nunca falha
Como exemplo
Cito aquela velha
semi morta
toda torta
A qual uma nova colcha
Ainda trêmula retalha
Em sua cadeira
Sem balanço
nem atalho
Contra o destino da navalha
Invisível ao olho
De quem vive de molho
Muito alho e agulha
A qual uma nova colcha
Ainda trêmula detalha
Como exemplo
Do tempo que nunca falha

Retrato mutável

Da janela estupidamente escancarada
O estonteante vazio dessa noite
Adentra em meu quarto
Copo de nada
Obrigado
Sou inutilmente sugado para dentro do quadro
Cuja pintura é mutável pelo tom transparente
Obrigado
Capa de nada
Separa o meu quarto
Do estonteante vazio dessa noite
Da janela estupidamente escancarada