O fim

O silêncio mastigado em nossa sentença

O ruir da ponte que nos liga

A morte de um antigo passo

É o fim da música e o corpo se cansa

Dois continentes

Um estado só nosso

O fim da valsa.

SÁBIO

O sábio em silêncio opina

Em suas têmporas
Resquícios ácidos
Indícios do ócio

Seus ilustres vícios
Diferentes do ópio

Anestésico
Calmante
Antiquado


Cuja paz não lhe faz sábio.

Lúdico

Nessa manhã o sol acordou bucólico

Para os modernos bulêmico

Desfilando feixes entre o algodão noir

Raquítico mistério sem bula

Nessa cama sonhei com o velho Bukowski

Caminhando sozinho na marginal

Desviando das palavras

Bebendo aos goles seu vinho boçal

Em sua cabeça careca piscava o caos

Um bule despejando mulheres fervendo

Buquês baratos de pura poesia

Nessa noite em algum canto

O qual eu nunca encontro

Encontrarei Maiakowski

Mas depois eu conto.

Sentido do Ego

Toda solidão é fantasia

Vivida em coletivo

Muitos e muitos conversam com as paredes

Chamando cada novo abraço de abrigo

Eu prefiro viver fora dessa sede

Onde um ponto já é amigo

Cada corpo uma rede

Para o meu cego

E rebelde

Ego




Sou São Paulo

Nessa cidade eu apenas vivo

Em estado transitório

Meu caótico e monstruoso livro

Sem a palavra território

O som que ouço não é são

Olhos irritados e pensativos

Passo a doença de escritório

Afogo nesse imenso alfabeto clonado

Cuspido em nosso mictório

Com passos em pressa

Minha cabeça é poluição

Paulo

Ricardo

Dualibi

Ou outro santo vigário.

Tanto

De todo tanto que eu tento

Sou sincero e não minto

Em todo canto que eu sento

Um semi-santo eu me sinto

De todo tonto enquanto invento

Mil telas de vento eu pinto

Em todo conto eu vago lento

Depois de tanto vinho tinto.

Maldito Leminski

Maldito

Leminski

Por sua culpa

Esqueço

Maiakovski

Bukowski

E até

Dostoiévski

Perdoe-me

Leminski.

A flor da pele


Azulada

A rosa de hoje em dia

Posa sem a mesma dimensão

Intensificada em uma atriz mutável

Uma perfeita pintura da moderna expressão

Repousa eternamente em um corpo instável

Cheirando a segunda intenção

A rosa de hoje em dia

Tribal

Maori

Maia

Oriental

Inca

Preta

Branca

Sombreada

Medieval

Asteca

Rupestre

Rosa

Onde as agulhas machucam mais que os espinhos

Consumo

Esbarro em espasmos do espanto
Um mendigo morto
Agora é tanto

A morte veio para limpar sua face
Invisível
Consumir os fios velhos de sua barba
Indivisível
Acabar com a térmica atemporal de sua pele
Intransitável

Escarro nesses espasmos do espanto
Um mendigo morto
Sempre é canto

Polos

A poesia mimética de teus insanos sonhos

Transborda no lumiar de nossos luares atemporais

Pousa pasma sobre meus ainda sóbrios átomos

Imantados sobre as emendas de nossa pele

Sem pólo

Nem porem

Hoje sei

Sou matéria mutável

Adaptada a nossos finitos planos.

Um dia desses serei aquele grande acerto jamais cometido

Rodopiando por entre as cartas da multidão

Com a cabeça jogada nas nuvens

E teu corpo parado no então



Hoje o liso de teu laço trança por mil variáveis

Até pousar na dança

Cujos lábios lentamente se convergirão em um nó

Duas estrelas

Além das outras

Desaguando sem imergir

Nessa grande valsa

Onde o tempo todo e toda sua trama

Não passará de pó

Duas línguas

Além das outras

Nessa grande salsa

Onde o mundo todo e todo o seu drama

Nos assistirá em um só




Espaço
Peso
Som
Saliva escassa
Nosso nó.

Bípede Geométrico

Todo homem ultrapassa enquanto traça e tenta ação
Sua pena é pensar em planos, entorta ao andar em linha reta
Em modo de mundo relativo infinito, pões seus pontos
Enterra espaço escasso, sofre de vertigem em triângulos
Com vértices sem opção, teima a esculpir três lados
Ao desejo tenta regular, tropeçando em ser quadrado
Explode por fechar a obra, nunca saindo do esquadro
Chorando, pois perdeu todo compasso, traço da pressa
Andando em círculos, vivendo vidas medianas
Sair pela tangente é ser inteligível, segmento agudo
Da população que paralela a prática, vira escrava congruente

Matéria

Nosso infinito conjunto de moléculas, átomos e glóbulos

não passa de matéria prima para mil matérias póstumas

cuja carne, ossos e fábulas

logo serão tatuados em clones de celulose

entupindo algumas artérias com nanquim

E celebrando nossa morte em postas

Para que no futuro, quando não houver mais nada,

alguém nos veja absorvendo ácido úrico, uréia e bosta.